"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 29 de março de 2011

surpresas

I
eu não percebi o naufrágio
quando acordei
era sal  e sol pra todo lado
tudo desfazendo-se
tudo decretando obsolecência da matéria

II
entre bits e bites
gente não se fala mais:
se visita em salas virtuais
e troca carinhos
com carinhas pontuais

domingo, 27 de março de 2011

à primeira vista

:
serenou espanto
nos poros pequenos
-
espraiou pureza 
nos olhos serenos

...

quinta-feira, 24 de março de 2011

num dia de sol lícito e solidário

forte
a menina-castanha se ergue
sozinha, não solitária
às margens do Japurá

quarta-feira, 23 de março de 2011

explicação (não sou bandeira)

Não,
não serei seu Misael
por isso fui embora na primeira queda
por isso não te compraria nunca
aquela fazenda de organdi azul.

domingo, 20 de março de 2011

Um teste e uma certeza sobre a solidão

           Ontem eu fiz um teste de uma revista. Um teste que seria da UCLA (EUA) e que mede o grau de solidão das pessoas. Adivinha?
           O maldito me diz que sou "uma pessoa solitária que provavelmente está consciente da situação"...

           Ser ou estar solitário é ter a sensação mais ou menos permanente de não entrar em conexão com outro ser humano. De não ser compreendido, de não pertencer ao mundo dos outros. Ou de que os outros não pertencem ao nosso mundo.
           Daí que não aceitei o resultado: Eu solitária?
           E a legião de amigos espalhados em tantos lugares do mundo?
           E os nove irmãos? Os tantos alunos? A tríade de filhas? Os leitores do blog?
          Ah, os leitores silenciosos do blog...
          Hoje, quando vim escrever aqui, não pude deixar de lembrar do teste.
          A experiência virtual é algo muito expressivo da solidão. Veja esse blog. Comecei-o em 2008, duvidando que seria legal. Deixei-o às moscas. Daí recebi cobranças para atualizá-lo, cobranças de leitores insuspeitos até então! O tempo passou, peguei gosto pela exibição da minha miséria, das minhas palavras, dos códigos para dizer ao mundo: "eu caí", "estou bem", "hoje chorei", "dormi mal", "quero isso/ ou você"...
          Os textos se amontoam, assim como as visitas que identifico pelas estatísticas do blog, constrastando com a raridade dos comentários ao fim de cada poema...
          Assim percebi o que o teste poderia querer dizer. Já escrevi aqui sobre isso, mas nunca de forma tão explícita. Não sinto falta de conexão com pessoas todo o tempo da minha vida, mas se há um espaço privilegiado para que esse sentimento se instale, esse espaço é virtual, afinal, quanta solidão me impõem, os leitores desse blog, ainda que eu saiba de suas visitas silenciosas?
          Já questionei o que querem ver os visitantes, já resmunguei sobre a exposição de minha carne viva e crua... E daí? Esses espasmos solitários dizem respeito a quem? Me exponho porque quero. Pelo mesmo motivo que Drummond enumerava: meu coração é pequeno, nele não cabem todas as coisas, nem eu mesma caibo nele... é por isso que existe esse blog...
          Você que passa silencioso por aqui: Eu sei que vens. E isso é o grande barato desse jogo de mostra esconde que me faz uma "solitária consciente da situação". Sua visita, leitor calado, é uma honra, e dá sentido à existência desse espaço. E graças ao teste da revista, não vou mais me lamentar pelo seu silêncio: é a mim que diz respeito a sensação de não pertencer. Na real, no entanto, tenho que admitir que não grito pra ninguém ouvir. As estatísticas apontam: você está aí... e mesmo que ninguém diga mais nada, sua visita certifica o inegável: aqui, eu não estou sozinha.    

sexta-feira, 18 de março de 2011

Espelhada

Eu palavra
substantiva
feminina
vôo.
Meu macho não
pouco se vê
é pouso e só
furioso silêncio.

quarta-feira, 16 de março de 2011

gritando mesmo, pra ninguém ouvir

quantos olhos
agora ouvem
o silêncio
de meus olhos?

segunda-feira, 14 de março de 2011

overdose de você

me estenda seu braço maduro
até que eu possa adormecer
e espalhe neste quarto escuro
a luz que vem pra me aquecer

e eu prometo nada, nada, nada
além de dormir em teu colo
e me sentir amada.
 
sacie a fome dos meus olhos
que se alimentam de te ver
intoxique os meus poros
numa overdose de você

domingo, 13 de março de 2011

13 de março*

Eu nunca esqueço desse dia:
a pequena aniversaria!
Ela, gigante sobre a mesa,
aplicando provas de destreza em língua portuguesa.

Em dias comuns
nos acariciava com sua língua de professora
carícias que valiam por minuciosa tortura...
e comparava Cazuza a Florbela
Russo a Drummond e Camões
e com essas estratégias surdas
espancava até a morte
minhas pretensões de desistir.

Foi ela
nos limites sufocantes da sala de aula periférica
quem um dia
me impediu de namorar à beira
e me jogou no abismo
infinito azul
da poesia.

e condenou-me à doce lavra
incontrolável vício
de burilar palavra.

* à Tomiko Oishi, eterna professora de língua portuguesa, onde quer que esteja...

sábado, 12 de março de 2011

obsessiva

tusso
tusso
tusso
a noite passa nessa bossa
o peito aperta
a garganta seca
palavras não saem.

altas horas
nem sono, nem poema
atormentado espasmo:
memória morena.

quinta-feira, 3 de março de 2011

De escrever

Semeio e colho no campo cheio
de palavras.
Cavo com as mãos
buscando dourado termo.
Espero que o lento fogo do tempo amacie
as duras expressões.
E depois de afogar vocábulos em água e sabão,
torcidos os penduro, enfileirados,
num verso varal.

Ensimesmada
construo-me na tela branca
completando com riscos pretos
o vazio à frente do cursor que pisca.

Trabalhadora
lavro, garimpo, cozinho, lavo
alijo-me do resto alojada nesta lida
bucando em mim
matreira caça que, abatida
tem exposta a própria carne.

Gota a gota
levo a cabo a trapaça que esgota a dor
e engasto na jóia a preciosa pedra que equilibra
vida e arte.
Precária existência compondo uma história:
minha intensa e exibida miséria.