"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Paixão

Francisco de Goya, Saturno devorando a su hijo (1819-1823)
O que me farta
é o que me falta
aflora
me aflige
fala, frustra
finca, finge, foge
enfeia e difere
me reforça
quando me fere.

O que me define
afina e afere
não me freia
antes me afoita
afoba
afoga
fareja em mim o fim
é festa, fúria, batalha
navalha fixa na pele
meu fino flerte com a falha...
felicidade.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Carta ao Vavá*

Comício de Lula em São Paulo, 1989.
nós na rua...
eu tenho isso vivo na memória
sua greve, minha performance nua
uma fé filha da puta que invadia nosso peito
e mantinha a gente na luta

nós na rua
em ação
cidadania contra a fome e pela vida
nós na avenida, gritando, berrando, dançando sambão
atando nós de esperança incontida
de construir algo maior do que nosso próprio coração
para além da nossa vida...

me lembro da gente na rua, enlaçados num nó, tudo junto
rindo por quem nascia, bebendo defunto
ensinando e aprendendo novas formas de afeição
pensando em quem não tinha
casa, estudo, sonho, pão...
me dói hoje
de eleição em eleição
ver campear a ignorância, a falta de amor,  a solidão
fermentam o nosso medo, sufocam nosso tesão
o conhecimento ancestral, há tanto jogado fora
e até a ciência, que é recente, se ignora
"a Terra é plana", "nunca houve ditadura"
"a vacina adoece", "o nazismo é de esquerda"

Quanta merda!
Me fecho numa prece
e peço aos deuses todos que nos guardem
dessa onda que acontece
porque fizemos história com o teu e o meu suor
e brevemente mostramos
que sim, "sabemos de cor
e só nos resta aprender".

vejo o Brasil ser tomado
por essa "gente de bem"
mostrando finalmente sua cara,
como pedia o Agenor
você tem visto esse horror?
Eu cá, sem você, me pergunto
por Maomé, Shiva, Cristo
se essa tristeza não vem
por nossa idade também
se política pra melhorar o mundo
não é coisa de vagabundo
ou ideia obsoleta
e me ouço gritar, no fundo de mim,
que Não!
que ESSA ONDA É REAÇÃO
devemos seguir em frente.

lembro de você, de mim,
fico contente
e no fim das contas me animo
a encontrar novas formas,
de política pra se fazer
de nadar contra a corrente
e estabelecer nova meta.
nossa vivência de luta é meu arrimo!
escrita por nós, com tantos nós
a nossa história recente, embora dura
destruiu a ditadura
fez o primeiro operário
e a primeira mulher presidente!
Nos orgulhemos de tê-la vivido
pois viver sem crer e lutar para melhorar o mundo
pelo amor, pela vida das pessoas
não tem nem nunca terá o menor sentido.

*ao Betinho, a mim, a você, que, embora golpeados por todos os lados, ainda lutamos por um mundo melhor.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

De uma guerra em mim.

Los desastres de la guerra, 1810-15. Francisco Goya.

como quem observa uma fera
ferida de morte
por tiro ou por corte
na jaula do zoo
me vejo e doo.

a cabeça pesa uma tonelada
e os ombros não aguentam
o peso da estrada
as pernas quebradas
me pedem pra parar.

em preto e branco
ou em explosão de cores?
que desconexa essa peça
que papel, senhores, que papel!
nem céu nem terra:
tateio meu coração
e é ao fundo do fundo do mar
que ele se aferra...
comigo não tenho calma
que papel, senhores, que papel!
o tempo me roça, cruamente
e sinto a alma, e o corpo e a mente
cedendo lentamente a seu cinzel.

nesses dias em que eu sangro mais escuro
e que futuro não parece haver
numa única célula do que sei ser,
não há pra onde recuar
e eu me empurro contra o muro
eu me jogo e me afogo
em meu próprio poço
e por mais que me debata
rasgando a pele, quebrando o osso
por mais que grite e busque palavras
que me traduzam
e me limpem com alívio do que sou
já não posso
desatar os laços
dessa angústia que me enforca.

por fora
nalgum lugar quando sorrio
eu sei que há ar, azul e vôo
mas no fundo eu sinto frio
cá dentro
tudo é lâmina e caco de vidro
mastigado e engolido...
a vida é uma escola?
tudo é prego enferrujado
fundo de garrafa, vidro quebrado
no baldio onde se joga bola...
tudo acidente previsto
eu sei, mas corri o risco
e agora danço em alguma parte
dessa carne macerada de leve
entre os dentes do destino.

sessenta e cinco dias se passaram
e mil lágrimas não operaram milagre
e tudo em mim ainda oscila
tudo em mim é matéria intranquila
que transita entre o nunca e a eternidade.
coberta de insustentável
e vergonhosa saudade
sou a um tempo o caçador
e a fera que se debate...
.
É por tudo isso
que sinto que morro
e ainda assim não ouso
pedir socorro.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Desesperança

Imagem: @_5le,
 Disponível em http://www.imgrum.org/media/889099935589827218_470347527
Chegaram-me hoje notícias de longe
de Green Point, de Cape Town
notícias de meninas pretas
lavadas em sangue,
jogadas em fossas
estupradas,
"corrigidas".

Chegaram-me hoje notícias de longe
de homens engravatados
grávidos de ódio
agravando abismos
em nome de deus.

Disseram-me forte hoje,
eu que burguesamente há dias
me esvaio em lágrimas
peito aberto, sangrado, sofrido
lamentando mais um sonho perdido
e desesperando por causa de amor...
eu recebi notícias de longe
que me ferem tal qual o abandono,
notícias que me tiram o sono,
notícias que me ampliam a dor.

Tanta treva
me trouxe à memória
notícias velhas de mis hermanas
putas pobres, travestis,
retirantes nordestinas
e imigrantes venezuelanas.

Sinto como se fosse minha cada ferida
e vago nesse escuro,
minha voz e meu verso são impotentes
embora eu não fique em cima do muro
sinto-me inválida, solitária e triste
diante da violência que avança
com a espada em riste
e veloz, vertiginosa
subverte sujeitos
e criminaliza afetos
nega aos não-normatizados
sua condição humana
e os descarta,
como abjetos objetos...


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Capa de" J'ai besoin de tendresse", de Ange Axel Moncorgé.2016.

Vou guardar meus poemas
meus três metros de mensagens
sem respostas
minhas mãos passeadeiras em suas costas
meus abraços fora de hora
meus beijos doados sem medo
minha boca, meu tesão
vou guardar a ânsia de te ver
vou guardar a ânsia de te ouvir
vou guardar a ânsia de viver
e do teu lado dormir.

Vou guardar pra mim
os atos de amor escondidos
na compra de supermercado
no banho do seu cachorro
no wafler de limão
no vinho na geladeira
na roupa nova pro colchão
no sexo de segunda-feira
e a aquarela em que eu, inteira
me coloquei na sua mão.

sim meu amigo
não se preocupe, eu não brigo
sou desse jeito, e no meu peito
pelo sim, pelo não
Vou guardar aqui  
o que você, na sua sandice
amarga e duramente 
me pediu que eu não repetisse...
não vou deixar meu amor se esvair completo
nessas lágrimas em que há tantos dias 
eu me derramo, derramo, derramo...
repito e guardo pra mim,
já que você, distante e covarde, prefere assim
não te digo mais que eu te amo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar"

"quem cultiva a semente do amor
segue em frente e não se apavora
se na vida encontrar dissabor
vai saber esperar sua hora..." 
Tá escrito, grupo Revelação
estão se indo os dias de chuva,
é cedo, cedo e a menina samba
constrói um espinhaço
espiral de energia que ascende ao espaço
braço, perna, quadril
tudo a mil
rodopia
fecha os olhos e dentro
sapateia com gosto de quem se vinga
as brotadas ervas daninhas
mentira tristeza decepção desamor

ela requebra
faz um sapatinho
e olhando pra cima não vê
as memórias de alguém
que sequer saberia dizer
o poder que tem sambar
pra curar seu coração.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Descontrolada e incerta

A duras penas tenho aprendido
que o incerto não é errado...
O incerto é esse cinza que me embaça o olho
miro-o como quem encara a lança no peito
como quem perde o último fôlego rio adentro
como quem, da forca, sente a abertura do cadafalso
enfrento-o na rua e no leito
no dia raiado, na tarde murcha
na madrugada insone
o incerto a tudo vence
e nos consome...

debato-me frouxa com o desejo inconformado,
descontrolado,
de controle.
eu que tarde descobri as lições do fluir
ainda me perco amiúde entre quereres e fervores
me acinzento
desacatando crepúsculos e amanheceres
que se acumulam na retina pra me lembrar que me afogo
que me firo a ferro e fogo
ao tentar, por força
esse jogo vencer.

afiro a vida
e respiro de novo,
e de novo,
e de novo
invocando o mantra que me tortura e salva
 - pois que destrói quem, tolamente, acreditei ser:
"não lutar,
nem temer."

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Feita d'água.


http://cultura.culturamix.com/arte/esculturas-de-gelo
fluo líquida
espalhando-me empática
pelo terreno do outro

fluo líquida
e por vezes esbarro em gélidas superfícies
solidifico ali
presa à negativa temperatura
rígida
tomo formas belas
mas estou quase sem vida
sinto-me agredida
quando me vejo
pedra e sal
cubo de gelo braços atados
no peito arde um temporal...

é tempo de espera esse
vou ressecando aos poucos,
tomo ar
tomo ar
tomo ar
atinjo lenta a desintegração que me renova
é longo o processo que me leva, leve, de novo
ao movimento
fluido
solto.

me sei líquida de um jeito oposto
essa entrega ao terreno do outro
mas sinto gosto é quando sou contida
sinto gosto é de ser aquecida
gosto quando me sorvem
ou me evaporam
toda fervida.



segunda-feira, 12 de junho de 2017

o que eu proponho
é bem mais simples que um simples sonho:
é dia dos namorados
e como nós - incomunicados
não falamos mesmo a mesma língua
ainda assim, não fiquemos à míngua
sejamos nós menos orgulhosos e mais sábios:
eu lavo-te a glande com saliva
tu levas a língua aos meus pequenos lábios
e juntos fazemos a noite mais viva.


domingo, 4 de junho de 2017

Postagem de dor, saudade e gratidão


Se hoje eu me autodenomino Elimacuxi, devo em grande parte à generosidade dela, que me acolheu, me amou, me encorajou. Há mais de uma década atrás, quando o termo macuxi ainda era usado como ofensa por muita gente que chega de fora a essa terra, foi ela quem me disse "pois não deixe que te questionem não, se alguém frescar perguntando porque macuxi pode dizer, 'porque sou filha da dona Rosilda Raposo'".
Ela preparava um caxiri docinho pra mim. Uma mujica gostosa. Um abraço doce. Ela me adotou e eu a adotei pra que ninguém 'frescasse' comigo. Ela me encorajou a me tornar a Elimacuxi que sou hoje. 
 É impossível expressar a dor da sua perda... Você estará para sempre no meu coração, minha mãe.